SINTRAE-SUL
A nova roupa da desigualdade no Brasil: O rei está nu

O escritor dinamarquês Hans Christian Andersen (1805-1875), autor de dezenas de contos infanto-juvenis, ainda hoje consagrados, no conto traduzido para o português com o título “A roupa nova do rei”, com a sua refinada ironia, desnuda as mazelas de um reino inominado, mas que, a rigor, poderia ser aplicado a todos, inclusive, nos atuais, alcançando também as repúblicas, notadamente no hemisfério sul.

Ávido pelas novas vestimentas, que o fariam único, o rei cumulou os citados charlatães de vultosas somas de ouro. Esses astutos, cientes da pavonice e dos limitados recursos mentais do rei — um parvo —, fingiam que cumpriam o contrato com ele firmado. Porém, ninguém conseguia enxergar sequer um fio bordado, mas isso não os preocupava; como fazem os charlatães atuais, não mediam palavras e contorcionismos para convencer o rei e os seus asseclas de que estavam trabalhando e que a sua obra seria magnífica.

Por isso, mandou o ministro da Cultura — curador das Artes do Reino — ir averiguar o trabalho dos tecelões do logro. Este, tal qual o rei, também não viu nada. Mas, com medo da represália e querendo bajular este — como bom bajulador que era —, disse-lhe:

— Assim, neste procedimento referencial do não-objeto… hã… em sua Desconfiado de que seria objeto de escárnio se acreditasse nos que o cercavam, mas, não conseguindo conter a sua bazófia, o rei, em dia de grande festa, despiu-se de sua roupa verdadeira e vestiu a simulada, e, com ela, saiu a desfilar pelas ruas do reino.

Possivelmente, Andersen não sabia muito do Brasil; entretanto, parece que este conto foi escrito pensando no que seria ele em 2016; se não o foi, há semelhanças demais que se pululam na pavonice do mandatário maior, na charlatanice dos que cosem as suas medidas políticas e econômicas, na bajulação dos asseclas que o cercam, e na arte de tentar enganar o povo trabalhador.

Os charlatães que a teceram e os seus capatazes, tais como os do conto, despudoradamente, afirmam que ela será a redenção do Brasil. O primeiro mandatário, como o fez do ministro da Cultura do conto em destaque, com o cinismo que lhe é peculiar, assevera que ela é linda e a coisa mais séria desde a promulgação da Constituição Federal (CF) de 1988.

Contudo, não possuem argumento para explicar o porquê de as despesas financeiras que sangram o Brasil, absorvendo metade do orçamento da União, ficarem fora da PEC .

Em uma palavra: há abissais diferenças entre o conto e a PEC; enquanto aquele fica do terreno da arte, esta, muito embora o imite, desmorona-se para a tragédia, principalmente, nas áreas nucleares de qualquer Ordem Social Democrática: educação, saúde, moradia, previdência social e investimentos.

Afirmar que não haverá ruptura das políticas sociais com o congelamento das verbas que a eles se destinam, por 20 anos — uma geração e meia — soa tão falso como falar que o rei nu, da obra de Andersen, estava divinamente vestido.

 

*José Geraldo de Santana Oliveira é consultor jurídico da Contee